Mudança de hábito

Mineiro, sociólogo e ator: Javert Monteiro trocou a vida incerta dos palcos pela estabilidade do serviço público. E não se arrepende — há dez anos, trabalha no TRT de São Paulo

No último papel que encarou, Javert Monteiro virou diretor de cinema pornô, em um episódio da série O Negócio, da HBO. Também já gravou comerciais, atuou em peças teatrais e participou de algumas cenas em novelas globais, ao lado de atrizes famosas, como Camila Pitanga.

“Mas ninguém lembra. Fiz poucas coisas, não sou conhecido”, conta Javert. Realista, o mineiro Javert, formado em Ciências Sociais, se cansou da carreira incerta de ator, que exerce desde os 21 anos.

“Eu recebia um dinheiro bom, que me deixava tranquilo por seis meses. Mas e depois? Depois não sabia quando pintaria outro trabalho”, conta. Aos 54 anos, o sociólogo decidiu dar outro rumo para a vida: apostou na estabilidade do serviço público.

A primeira chance pintou em 2008. Havia rumores sobre a abertura de um concurso para contratação de analistas e técnicos administrativos para o Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Matriculou-se na Central de Concursos e enfiou a cara nos livros.

“É uma belíssima estabilidade e, por mais que mexam na Previdência, sempre será estável e relativamente bem pago”

“Esse negócio de estudar por conta não funciona comigo. E, como a Central é a maior escola de São Paulo, comecei lá”, lembra. Só que o resultado não foi tão bom quanto esperava: a classificação saiu e Javert estava bem atrás na fila de espera. “Fiquei em 700 e pouco e eram 200 vagas para técnico administrativo. Pensei: não vou ser chamado nunca”, diz. Continuou os estudos até que, para a surpresa dele, o TRT o convocou (a fila anda muito nos concursos do órgão).

Em 2011, tomou posse e conheceu os benefícios dos servidores públicos. “Recebo todo mês, no dia certo o dinheiro está lá. E, depois do estágio probatório, dificilmente o cara perde o emprego”, comemora. “É uma belíssima estabilidade e, por mais que mexam na Previdência, sempre será estável e relativamente bem pago”, completa.

Como técnico administrativo, Javert passou alguns anos cuidando de planilhas e relatórios. “Eu curto, foi uma grande mudança. Mas aprendi que aqui dentro o mais importante é diminuir o volume de pendências”, conta.

Há dois anos e meio voltou a fazer o que mais gosta: falar com o público no balcão de atendimento do TRT. E, entre aulas de filosofia e processos do trabalho, Javert ainda arruma uns bicos para atuar como ator.