Atualidades e o radicalismo não combinam

Atualidades e o radicalismo não combinam

Por Marcos José, professor de Atualidades da Central de Concursos

faz algum tempo — ou melhor, alguns anos — que eu venho trabalhando atualidades juntamente com os meus comentários e sendo hostilizado por algumas pessoas mais exaltadas na sua postura política. Isso é muito raro numa aula presencial, mas nas redes sociais é a atitude mais comum.

Discordar da sua opinião pode ser até saudável e provoca um bom debate, o que prova de forma positiva que vivemos numa democracia. Nada contra alguém discordar, já que, acredito não ser o dono da verdade e sempre afirmei que nessa situação, o discordar, é produtivo.

A matéria que ministro em sala provoca às vezes, e isso também é a minha intenção, alguma polêmica. Não que isso seja a principal função da matéria atualidades, longe disso, mas é impossível não provocar.

Abordar fatos sobre guerras, conflitos, conteúdos jornalísticos recheados de críticas, divergências políticas ou econômicas, questões culturais ou científicas… religião, não é uma tarefa simples ou corriqueira. Muitos alunos ou candidatos acabam sendo “tocados” por alguma polêmica e não perdem a oportunidade de manifestar a sua opinião.

Em sala de aula é notável o olhar de desconforto de alguns alunos, mas devido ao peso da “autoridade” do professor (eu, no caso) e para evitar ficar sendo exposto, um aluno às vezes prefere ficar calado.

Vou dar um exemplo: um aluno pergunta sobre o significado do nome Bancada BBB. E logo vêm as perguntas “o que representa isso professor?”, “não é uma piada?”. Então explico sobre o significado do nome, e o que representa em termos políticos no Congresso, e também o peso do conservadorismo religioso embutido nesse particular político.

Em sala de aula é notável o olhar de desconforto de alguns alunos, mas devido ao peso da “autoridade” do professor (eu, no caso) e para evitar ficar sendo exposto, um aluno às vezes prefere ficar calado.

Já nas redes sociais é muito diferente. Serão feitos comentários jocosos e muitas vezes acompanhados de adjetivos depreciativos ao professor. Acusações sem o menor sentido, incluindo a acusação de manipulador ou doutrinador político.

Lembro-me muito bem de comentar em sala de aula presencial o cancelamento da exposição no Queer museu, que aconteceu em setembro de 2017. Fiz a abordagem das razões do cancelamento e não deixei de opinar sobre esse absurdo. Os alunos ouviram, anotaram e continuaram a prestar atenção na aula, nenhum incidente registrado.

Nas aulas online que gravei sobre o mesmo tema, tive a mesma atitude e pasmem, foi uma enxurrada de críticas e acusações. Cheguei a ser chamado até de pedófilo. Um absurdo!

E fica aqui a pergunta: Por que tanto radicalismo nas redes sociais? Sobre essa minha pergunta não faltam (felizmente) estudos. Isso é um fenômeno que óbvio não atinge apenas a nossa sociedade.

Finalizando essa reflexão, a matéria atualidades e o radicalismo não combinam. Eu não posso ficar dando minha opinião sobre tudo, isso seria um grande equívoco. Mas também será um equívoco esperar que um professor não possa de maneira alguma opinar.

A minha real preocupação não são exatamente as críticas, mas sim a perda do foco no tema ou assunto: um candidato preocupado no entendimento dos temas de atualidades não pode se deixar levar por isso, ou seja, pelo radicalismo.

O que o professor acredita, assim também com a sua critica, não deve invalidar o foco no conteúdo.Mas o professor é obrigado a opinar? Claro que não! Mas ele também não deve ser proibido de opinar, afinal, isso também é um direito dele.

Sempre deixo claro para os alunos que é a minha opinião e que isso não cai na prova. E para aqueles que estão apoiando o movimento Escola Sem Partido, fica o recado: nada mais político e ideológico que esse projeto. Acreditar que o professor não deve falar o que pensa é um absurdo. Isso fica a critério dele.

Finalizando essa reflexão, a matéria atualidades e o radicalismo não combinam. Eu não posso ficar dando minha opinião sobre tudo, isso seria um grande equívoco. Mas também será um equívoco esperar que um professor não possa de maneira alguma opinar.

Se o presidente Bolsonaro deseja mudar a embaixada do Brasil para Jerusalém, isso é um direito constitucional do presidente e as implicações políticas serão inevitáveis. Cabe ao professor explicar as razões disso e ao aluno prestar atenção e tirar suas dúvidas.

Se eu discordo e tenho críticas, posso fazê-las, mas é importante deixar claro que isso não vai cair na prova. O foco da aula é o tema, não a minha opinião. Então, por que opinar? O contrário também é válido: Por que não opinar?